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Os intérpretes existem desde o início da comunicação verbal. Existem vestígios em baixo-relevo da actividade de intérpretes no Antigo Egipto. Os gregos e os romanos precisavam dos serviços de intérpretes sobretudo porque, na qualidade de conquistadores, consideravam indigno ter de aprender a língua dos povos que conquistavam. Contudo, a sorte destes primeiros intérpretes nem sempre foi feliz. Muitos eram prisioneiros de guerra ou escravos oriundos de terras longínquas, que conseguiam comunicar em duas línguas, e que por terem participado em conversações ou negociações políticas espinhosas acabavam por ser mortos.

Quando começaram as viagens de exploração e as Descobertas na Idade Média, os intérpretes eram muito solicitados, passando a gozar de mais prestígio, e muitos deles deixaram o seu cunho nas grandes cortes e no mundo mercantil, para não falar da Igreja. A comunicação com povos indígenas, dignitários estrangeiros, dirigentes políticos, mercadores e outros, requeria serviços de interpretação. A cristianização da Europa foi muito facilitada pelos intérpretes e a exploração da Ásia e o zelo missionário, sobretudo na China, teriam sido impossíveis sem o seu contributo.

 

A interpretação passou a ser menos solicitada quando França emergiu como potência dominante na Europa e o francês se tornou a língua da diplomacia europeia. No entanto, missionários, comerciantes, militares e muitos outros foram suficientemente perspicazes para admitir que a comunicação por intermédio de um intérprete profissional seria uma aposta ganha. Depois, entre as Grandes Guerras, começaram a surgir as organizações internacionais, entre as quais a Sociedade das Nações e a Organização Internacional do Trabalho, passando a haver necessidade de interpretação formal cobrindo diversas línguas. Todavia, tratava-se ainda de interpretação consecutiva, o que a este nível tornava as reuniões intermináveis. Neste contexto, o intérprete toma nota da intervenção do orador e, no fim, restitui a mesma mensagem noutro idioma. Deste modo, as reuniões tendem a tornar-se morosas e perde-se qualquer espontaneidade.

Os americanos e os russos esforçaram-se por conceber e testar tecnologia para ultrapassar a barreira da consecutiva, mas com poucos resultados úteis. Surgiu então o catalisador!

Os julgamentos de Nuremberga nunca teriam sido possíveis com interpretação consecutiva. Neste contexto, surge então a Interpretação Simultânea. A actividade do Tribunal decorreu em inglês, francês, russo e alemão. As condições eram difíceis, a matéria penosa e a necessidade de exactidão da maior importância.

Com o apoio da IBM, Leon Dostert, intérprete do General Eisenhower, convencido de que a tecnologia podia ser usada para restituir as palavras do orador em simultâneo numa outra língua, concebeu e testou equipamento que consistia em auscultadores equipados com selectores para quatro canais. Permitia-se, assim, a todos os presentes no Tribunal seleccionar a língua pretendida: inglês, francês, alemão ou russo. Para que tudo funcionasse sem grandes interferências de ruído, foi concebida uma "caixa de vidro" (cabina de interpretação) para os intérpretes, colocada num local que permitia aos intérpretes ver o que se passava na sala e serem vistos. Duas equipas de intérpretes alternavam de 45 em 45 minutos. Enquanto uma das equipas trabalhava na sala de audiências, a outra seguia o julgamento por meio de auscultadores noutra sala e uma terceira equipa descansava meio-dia.

Estes intérpretes pioneiros trabalharam em condições de grande stress durante quatro meses e meio, e a eles se deve o aparecimento da interpretação simultânea.

Em 1947, as Nações Unidas adoptaram a Resolução 152, que incluía a interpretação simultânea entre os seus serviços permanentes. Hoje, a ONU dispõe de interpretação nas suas seis línguas oficiais ? inglês, francês, espanhol, chinês, russo e árabe. A União Europeia, de longe o maior empregador de intérpretes de conferência, dispõe actualmente de interpretação nas 23 línguas oficiais dos 27 Estados-Membros.

O quadro de planeamento para uma reunião em que se utilizem as 23 línguas requer um total de 100 intérpretes e assemelha-se a um quebra-cabeças! As combinações linguísticas dos 5 intérpretes que compõem cada cabina (para uma reunião com 23 línguas) devem corresponder à soma das línguas que podem ser faladas na reunião. É aqui que tudo se complica e se torna exigente, independentemente da perspectiva que se adopte. Ainda não foi concebido um motor de busca que faça o planeamento das equipas, e será que estará disponível antes de o inglês se tornar língua franca na UE?

A interpretação simultânea continuará a existir enquanto a vasta maioria dos cidadãos mundiais dominar apenas uma língua, e sempre que existir tecnologia para o efeito. Mas, ainda que as gerações futuras se tornem bilingues ou multilingues, como poderá acontecer, a interpretação continuará a ser uma profissão de pleno direito, distinta da tradução. Está em causa mais do que traduzir palavras ? não há tempo para "traduzir" ?, é preciso entrar na pele do orador, quer nos agrade ou não o conteúdo das suas palavras, cabendo-nos captar as suas ideias, pensamentos, cultura, e retransmiti-los noutra língua.

Talvez por isso a interpretação simultânea não seja propriamente ensinada, mas antes desenvolvida a partir de um qualquer mecanismo já existente no cérebro do potencial intérprete.

Muito já foi escrito sobre o assunto por especialistas. Limitar-me-ia a recomendar, à guisa de introdução à Interpretação Simultânea, o documentário de 80 min. realizado por David Bernet e Christian Beetz ? "The Whisperers" ("La Voix des Autres"/ "Die Flüsterer") ? GebruederBeetz Film Production (www.gebrueder-beetz.de).

Sheilah S. Cardno
Lisboa, Agosto 2006